Vinda da Escuridão – partes 23 e 24

XXIII

Steve descia do automóvel e seguia a passos decididos em direção a casa principal enquanto os serviçais tratavam de pegar suas malas e levar para seu quarto.  No final do caminho de pedras que levava para a varanda ele muda a sua direção e começa a circundar a casa.

Steve seguia pela propriedade já chegando aos campos sem nem ao menos olhar para trás nem falar com nenhum dos empregados. Ele caminhou até chegar a um pequeno lago que nos dias de calor muitos dos empregados usavam para se refrescar no final do dia.

Steve descalçou os sapatos e as meias, dobrou a calça até a altura dos joelhos, pousou seu terno e gravata sobre os sapatos e entrou caminhando no lago até a água ficar-lhe pela metade das canelas. Então ele se voltou sua atenção para a casa e ficou a observando por alguns minutos ali parado.

Steve mais uma vez se certificou de que estava a sós e então seguiu caminhando para dentro do lago. Até que a água cobriu-lhe todo. Deixando pelo caminho que fizera uma mancha negra como piche.

M’Thulu caminhava pela fazenda coletando algumas flores, em especial a procura de margaridas as preferidas de Amanda, para decorar a casa e o quarto dos noivos. Aqueles eram os últimos detalhes, ele havia deixado para fazê-lo quando estivesse faltando pouco para o casamento, para que as flores não murchassem.

Enquanto voltava para a casa grande M’Thulu via que o Sr. Steve estava a sós no lago e caminhava para o fundo. Ele não sabia o porquê, mas quando viu o Sr. Steve ali sentiu um frio percorrer-lhe toda a espinha então ao reparar que o homem não retornava a tona após um tempo correu em direção ao lago. Ao chegar ao lago M’Thulu não via nada além das plácidas águas transparentes do lago.

Preocupado com Steve, M’Thulu mergulhou no lago a sua procura. M’Thulu intercalava braçadas e gritos chamando por Steve. De repente M’Thulu, começou a sentir a água mais pesada e reparou que tinha de fazer mais força para conseguir nadar.

Ele olhou para os braços e estavam cobertos de uma substância negra como piche. E aquilo parecia que fazia resistência as suas braçadas. Tomado pelo susto M’Thulu começou a nadar em direção a margem. Quanto mais nadava mais sentia que suas forças acabavam ele já conseguia ver a cesta com as flores que acabara de colher quando sentiu algo puxando suas pernas.

M’Thulu tentava se soltar mas aquele líquido negro viscoso entrava por suas narinas e boca deixando um grito mudo enquanto o levava para o fundo do lago.

XXIV

Amanda era penteada pela mãe enquanto a Sra. Macarty a ajudava a vestir seu vestido de noiva e fazia os últimos ajustes.

– Vamos Amanda! Encolha essa barriga! – dizia Sra. Macarty enquanto puxava o espatilho.

– Ai! – gritava Amanda.

– Pronto está amarrado!

– Vamos filha, não se mexa tanto!  Assim não conseguiremos terminar de arrumá-la para o seu casamento!

Neste momento a esposa do Coronel Andrew Jackson, Rachel Jackson entrava pela porta do quarto onde as mulheres arrumavam a noiva.

– Meu Deus! Como Amanda está linda! – exclamou Rachel ao entrar. – Marta, sua filha está parecendo uma princesa dos contos infantis!

– Ora Rachel! Venha aqui ajudar com isso. – respondeu Marta ainda arrumando o penteado da filha. – Fique quieta Amanda!

As mulheres arrumavam a noiva enquanto nos jardins da Mansão Fisher alguns dos membros mais influentes do estado se confraternizavam. Facilmente se encontrava o Coronel Andrew Jackson, herói na Batalha de Nova Orleans, com suas protuberantes sobrancelhas, conversando com o prefeito Augustin de Macarty, John Caldwell Calhoun, o Dr. Luís LaLaurie e o pai da noiva, tratando de assuntos políticos. Em outro lugar do jardim estavam os irmãos Lafitte, Steve Palmer, o xerife Lebeau e James Bowie.

Assim tudo corria tranquilamente, quando o noivo Thomas Fisher chegava no local trajando uma impecável casaca completa, sua cartola e abotoaduras com a mesma pirâmide da nota de um dólar, acompanhado pelo advogado Martin van Buren.

– Obrigado Sr. Van Buren pelas abotoaduras. – disse Fisher.

– Ora Sr. Fisher, é uma honra ter o senhor como um membro de nosso clube, que já conta com o coronel Jackson dentre outros.

– Como disse senhor é uma honra para mim.

– E seu irmão Sr. Fisher ele nos honrará com sua presença?

– Infelizmente meu irmão não poderá comparecer. Ele recentemente está numa viagem até a capital. Mas não tardará a estar conosco em breve. Agora senhor se me devemos nos posicionar para o início da cerimônia. Afinal és meu padrinho e amigo de velha data de meu pai.

O velho advogado concorda com um leve aceno com a cabeça e segue com Thomas e tomam suas posições.

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Vinda da escuridão – parte 22

XXII

 

O Blood Diammond aportava com o novo carregamento de produtos vindos do Caribe, e na proa era Steve Palmer era visto com seu costumeiro traje elegante. A calefação da respiração dos homens denunciava que aquela era uma manhã fria o cargueiro estava cheio a viagem fora longa dessa vez.  Ao lado de Steve estava o filho mais velho de M’tulhu que trabalhava diretamente com Steve.

– Aqui estamos de volta ao lar mestre. – disse o jovem empregado.

– Desta vez nos demoramos além do esperado, George. Pegue minhas malas e encontre-me no automóvel. – diz Steve se encaminhando para a área de desembarque.

“Acho que está acontecendo algo, não me agrada ter de passar tanto tempo distante.” Pensava Steve tão entretido em seus pensamentos que não reparou quando o Matheus West saia da sede das empresas.

 

Matheus ia saindo do prédio após a conversa com seu irmão caçula enquanto Steve caminhava até o carro e se sentava no banco de carona. Rapidamente então ele entrou num restaurante que ficava a frente do prédio e por uma janela passou a observar o sócio de seu irmão.

– Mestre, suas malas já estão na mala. Está pronto? – perguntou o jovem.

– Vamos para casa. Não estou me sentindo bem, foi uma longa viagem e primeiro devo descansar. Mais tarde falarei com Thomas sobre o que trouxemos. – respondeu.

 

Matheus observava Steve e o jovem motorista partirem no automóvel e ao desaparecerem ao longe então ele respirou aliviado, quando ele sentia seu ombro sendo tocado.

Lebeau estava almoçando quando viu o xerife West, entrar no restaurante e sentar numa mesa próxima a janela. Parecia que ele estava observando alguma coisa, mas do ponto onde ele estava sentado não conseguia ver o que era.  Então Lebeau acabou de comer seu peixe e se aproximou de West e tocando seu ombro disse:

 

– Matheus? Posso ajudá-lo em alguma coisa? – disse para espanto do xerife West.

– Ora! – respondeu assustado Matheus – Xerife Lebeau, eu acabei de chegar à cidade estava ia almoçar e depois iria procurá-lo. Gostaria de me acompanhar no almoço?

– Eu acabei de terminar, mas posso fazer companhia para você. Enquanto como minha sobremesa e tomo meu café.

– Então amigo, deixarei para comer mais tarde, vou acompanhá-lo no café.

Vinda da escuridão – parte 21

XXI

                Algumas semanas depois do acidente com a senhora Frings, o esperado anúncio do noivado de Thomas Fisher e a jovem Amanda fora comemorado com uma grande festa na casa de Thomas.

                Nos meses de preparação para o casamento os negócios de Fisher prosperavam mais e mais e ele que já era um dos homens mais ricos da cidade, se tornara também um dos mais ricos de todo o estado da Louisiana.

                Essa ascensão começa a incomodar algumas pessoas e a despertar o interesse de muitas outras, dentre estas o xerife Lebeau que desde o acontecimento na casa de Thomas estava sempre o observando de longe esperando que ele cometesse algum deslize.

                Era a manhã de uma sexta-feira seu casamento aconteceria a noite, Thomas acabara de chegar ao seu escritório para concluir algumas pendências que havia deixado do dia anterior quando sua secretária entrava pela porta carregando algumas pastas.

                – Eleanor, eu disse que pela manhã não faria nada hoje, não receberia ninguém.

                – Sr. Fisher, um homem que se apresentou como Matheus West de Diamondhead, deseja falar com o senhor. Eu falei para ele que o senhor estava muito ocupado, mas ele insistiu para que eu o anunciasse. Devo pedir para ele se retirar?

                – Matheus West? Não! Deixe-o entrar. Depois tranque a porta. Não quero ser incomodado por ninguém. Mesmo que seja minha noiva ou o Steve.

                Eleanor deixa as pastas sobre a mesa do chefe e depois convida o visitante a entrar no escritório. E assim que sai faz como o ordenado por Thomas deixando os dois homens a sós.

                Ainda da porta e com a secretária a sua costas, Matheus sorri para Thomas. E quando Thomas ouve o trinco da porta retribui o sorriso enquanto se aproxima de Matheus.

                – Como vai Thomas? – diz Matheus apertando-lhe a mão.

                – Ora você não está adiantado? Aguardava sua visita somente daqui a vinte dias como estava no comunicado que me enviou!

                – Houve alguns problemas Thomas… Parece que descobriram seus planos.

                – Como assim? Somente nós dois sabíamos do nosso acordo.

                – Parece que alguém desta cidade está fazendo uma investigação minuciosa sobre a sua vida. E isso pode nos causar sérios problemas.

                – Você sabe quem é? Eu apostaria no Xerife Lebeau.

                – Não, não é ele. Não tenho ainda essa informação. Mas Lebeau não chegaria tão longe.

                – Vamos Matheus você está me escondendo alguma coisa! Você sabe de mais coisas e não quer me contar? Não se esqueça que sou eu que estou na ponta da lança. Se alguma coisa acontecer vai ser comigo. Então nosso trabalho todo será em vão.

                – Eu sei Thomas, eu sei…

                – Então, se você se expôs tanto me enviando aquele comunicado e vindo até aqui. Deve ser alguma coisa mais importante

                – Parece que a pessoa que está te investigando, está perto de descobrir para quem você trabalha. Depois disso para chegar até a mim e aos outros vai ser muito fácil.

                Thomas fica em silêncio completamente absorto com a revelação de Matheus. Afinal ele não se comunicava com ninguém desde que começou os preparativos de seu casamento havia seis meses.

                – Eu sei que você gosta da menina, Thomas. Mas não se esqueça que nós enviamos você aqui para encontrar respostas. E até agora não encontramos nada. E se demorar mais você colocará a jovem e a família dela em perigo também.

                – Você está certo Matheus. Vou adiantar as pesquisas. Mas agora está mais difícil desde o dia da compra da casa nenhuma atividade foi detectada.

                – Thomas, tome muito cuidado. Só somos nós dois desde que eles se foram. – diz Matheus com olhar preocupado – Não quero ter de enterrar meu irmão mais novo. Como não posso estar aqui com você. Tome muito cuidado.

                Thomas acompanhava o irmão pela janela de sua sala enquanto pensava em tudo o que lhe fora dito. Então ao ouvir o som do Blood Diamond aportando e chamando sua atenção fazendo com que ele se lembrasse que no final daquele dia ele iria se casar com sua bela noiva Amanda.

Vinda da escuridão – parte 20

XX

 

Thomas se acomodava na sua poltrona enquanto indicava uma cadeira para que o xerife se sentasse, já tomando a iniciativa na conversa:

– Pois bem xerife, sobre o que gostaria de conversar comigo? Deve ser algum problema grave, pois veio até a minha casa.

– Pelo que vejo é um homem bem prático Sr. Fisher? Então tentarei ser tão prático quanto você Thomas.

– Me desculpe xerife, mas somente meus amigos me chamam pelo meu primeiro nome. – interrompeu Thomas.

A atitude de Thomas pega o xerife de surpresa e ainda desnorteado ele prossegue:

– Perdoe-me então Sr. Fisher. Pois bem, o senhor vem de Diamondhead no Mississipi não é verdade? – pergunta o xerife.

– Sim, todos sabem disso. Fui criado lá.

– Pois bem, o xerife de Diamondhead me enviou um comunicado para entregar ao senhor.  Aqui está. – diz colocando o envelope sobre a mesa e empurrando para Thomas. – Junto ao comunicado ele pediu para informá-lo que a sua casa foi destruída por um incêndio.

– Como? Incendiada? – diz pegando o envelope.

– O Senhor há poucos dias viajou para Diamondhead Sr. Fisher?

– Não. Não vou para lá faz dois anos. Minha casa estava à venda por isso.

– Tem como comprovar que não viajou para Diamondhead há três semanas?

– Tenho sim. Há três semanas fui pescar em alto mar com meu futuro sogro. Ele pode confirmar se desejar.

– Não será preciso.

– Mais alguma pergunta xerife Lebeau? – pergunta já se levantando da cadeira.

– Por hora não senhor Fisher.

Thomas se dirige até a porta do escritório enquanto fala.

– Então como não tem mais nenhum negócio a tratar comigo xerife. Sinta-se a vontade de voltar a me visitar quando achar necessário. Agora se me dá licença, devo conversar com meu futuro sogro para saber como minha futura sogra e esposa estão.

 

O xerife Lebeau se levanta calmamente observando bem o escritório de Thomas enquanto fala:

– Pode ter certeza disso senhor Fisher. Sempre que eu achar necessário virei até aqui visitá-lo.

 

“Mas o que será que o Matheus quer comigo? Melhor ainda por que ele me enviou um comunicado oficial?” – pensava Thomas enquanto acompanhava por olhar o xerife enquanto ele se afastava da casa em direção a cidade. Enquanto segurava o envelope que lhe fora enviado.

 

Vinda da escuridão – partes 18 e 19

XVIII

– Doutor Frings! Doutor Frings! – grita Geremy que corria atrás do médico.

Phillip ao ouvir que era chamado, volta a atenção para o mordomo que se aproximava correndo.

– Por Deus homem! Por que tamanha agitação?

– Doutor Frings… Sua esposa… Sofreu um acidente. – respondeu ofegante.

– Mas! Vamos, vamos logo! – disse Phillip correndo em direção à mansão.

Thomas e Amanda, acompanhados por M’tulhu retornavam quando avistam o Doutor e Geremy correndo de volta para a mansão.

– Thomas, o que deve estar acontecendo? Por que papai estaria correndo?

– Não sei querida, mas vou até lá para ver o que está acontecendo. Não se preocupe não há de ser nada demais. – Diz tentando acalmar a jovem. – M’tulhu, acompanhe minha noiva até a mansão eu vou me adiantar para saber o que está acontecendo.

– Pode ir Sr. Fisher. Eu acompanharei a senhorita Carter até a mansão. – respondeu M’tulhu com seu forte sotaque francês, enquanto Thomas acelerava o passo distanciando-se.

– M’tulhu, o que sua intuição diz?

– Minh’ama. Não deve se preocupar enquanto o Sr. Fisher estiver na casa nada de mal acontecerá. Pode ter certeza disso.

– Como você pode ter tanta certeza disso M’tulhu?

– O vento me contou minh’ama, o vento me contou. – reponde M’tulhu observando que Thomas corria envolto por uma sombra que ficava cada vez mais densa ao se aproximar da casa. – agora devemos seguir tranquilamente minh’ama.

XIX

O som da vidraria quebrando chamou a atenção dos dois homens que estavam na sala que num salto partiram em direção da origem do som. Lá eles encontraram a senhora Frings caída com um corte na cabeça por onde sangrava bastante e uma prateleira de vidro da estante da sala de jantar quebrada. De imediato Steve ordenara para que Geremy buscasse o doutor Frings que caminhava a procura da filha e do futuro genro. Enquanto o xerife LeBeau se aproximava do corpo da mulher caída.

– Ela está respirando, mas com dificuldades. Sr. Palmer ajude-me a colocá-la deitada sobre a mesa.

O Xerife segurava a senhora Frings pelos ombros com cuidado para não ferir o pescoço, enquanto Steve a segurava pelas pernas.

– Quando eu contar até três nós a levantamos. – disse o xerife – Um… dois… três…

Tão logo a senhora Frings estava acomodada sobre a mesa, seu marido entrava pela porta que dava acesso à cozinha.

– O que aconteceu aqui? – perguntava Phillip.

– Estávamos conversando na sala quando ouvimos o barulho de vidro quebrando doutor. Quando chegamos aqui sua esposa estava caída sobre os cacos da prateleira de vidro. – respondeu Steve.

– Exatamente. – confirmou o xerife.

– Muito bem então… Por favor me dêem espaço. Vou precisar de pano limpo e água para limpar os ferimentos.

– Geremy providencie o que o doutor precisa. – ordenou Steve.

– Sim senhor.

O xerife LeBau apenas observava a cena que passava diante de seus olhos, quando por fim ele reparou que o piso estava arranhado.

– Meu bom doutor eu tenho uma teoria… Se me permite… – diz o xerife se aproximando das pernas da esposa, causando um imenso constrangimento.

– Mas o que o senhor pensa que está fazendo, xerife? – diz indignado o doutor.

Ignorando o que o médico falava o xerife levanta um pouco o vestido da senhora Frings o suficiente para ver que o sapato havia quebrado seu salto.

– Como pensei. A senhora Frings caminhava pela sala de jantar seguindo para a sala de leitura, quando seu sapato prendeu no chão, ela fez força para se soltar, quebrando o salto o que ocasionou seu desequilíbrio e posterior queda. Nesta queda ela bateu com sua cabeça na prateleira que quebra com o impacto. Causando o ferimento na cabeça.

O xerife que enquanto falava encenava sua teoria nem percebera que o Sr. Fisher havia chegado ao exato momento em que ele olhava para o sapado da senhora Frings.

– Impressionante sua capacidade de dedução, xerife. Mas o que ocorreu fora tão grave para o senhor já estar aqui em minha casa? – perguntou aplaudindo Thomas.

– Sr. Fisher… Não, não vim por causa do acidente com a esposa do doutor. Mas já estava aqui quando ocorrera. Vim até aqui, pois tenho algumas perguntas para fazer ao senhor.

– Irei responder a todas assim que souber qual o estado de minha futura sogra. – disse Thomas enfatizando a palavra sogra.

A revelação pega o xerife de surpresa, pois ele sonhava em desposar a filha dos Frings.

– Marta está bem, filho. Foi só o susto, disto tudo irá sobrar apenas uma leve cicatriz. – informou Phillip. – Pode ficar tranqüilo.

– Muito melhor então. Pois bem xerife, por favor, me acompanhe até meu escritório. E Steve, por favor, acomode a senhora Frings num quarto para que possa se restabelecer.

Vinda da escuridão – parte 17

XVII

Steve e o doutor Frings fumavam um charuto na varanda da mansão enquanto conversavam sobre vários assuntos quando o mordomo Geremy, um haitiano forte com seus 1,85m de altura, mas de movimentos suavex e discreto, recém contratado por Thomas para cuidar da criadagem, se aproxima dos dois rapidamente com um olhar preocupado.

– Meu bom doutor Frings, parece que a cidade novamente sofre da febre. O senhor como um homem da ciência saberia me dizer qual motivo dessa nova epidemia? Até uns anos atrás nosso maior inimigo eram os crocodilos, agora estas doenças que matam vários de nossos cidadãos.  – falava Steve ao bom doutor.

– Mestre Palmer – interrompia o mordomo ao se dirigir a Steve. – O xerife do condado está à procura de Mestre Fisher. Mas mestre Fisher se encontra caminhando pela propriedade com a filha do bom doutor como sabem. E o xerife aparentemente está muito agitado, senhor.

– Geremy, avise ao xerife que estarei recebendo-o em poucos instantes. – responde Steve ao mordomo.  – Me perdoe doutor, mas as circunstâncias exigem que me ausente por alguns instantes. Se me permite? – diz Steve ao se levantar.

– Ora, mas é claro Steve! Eu irei aproveitar e esticarei um pouco minhas pernas. Vou procurar por aqueles dois jovens! – também se levantando.

Os dois homens que se despediam seguem em suas direções opostas.

Steve entra na sala e vê o Xerife Jonas Lebeau, jovem um pouco mais velho que Thomas, ele se vestia como os xerifes que viviam no centro-oeste, e mostrava sua estrela de xerife com orgulho e mantinha o os cabelos na altura dos ombros desgrenhados, marcados pelo chapéu apertado na cabeça, e um princípio de bigode que contornava a parte superior dos lábios, parado de costas para a entrada pela qual vinha olhando pela janela que dava visão a entrada da mansão.

– Me desculpe fazê-lo esperar Xerife LeBeau. – diz Steve ao entrar na sala de visitas.

– Senhor Palmer. Vim à procura de seu sócio, o senhor Fisher. Poderia me levar até ele? – respondeu impassível o Xerife Jonas LeBeau.

– Os empregados já estão à sua procura. Mas o senhor poderia me antecipar o que está acontecendo? Aconteceu algo na cidade com nossos negócios, xerife?

– Não posso antecipar nada senhor Palmer, mas não se preocupe não há nada de errado na cidade. Tenho apenas que fazer algumas perguntas ao seu sócio.

– Me desculpe xerife, mas Thomas está sendo investigado por alguma coisa?

– Ele deveria?

– Claro que não. Mas como o senhor não explicou ainda o que deseja com Thomas, me parece que ele é suspeito de alguma coisa.

– Volto a lhe dizer senhor Palmer. Não posso lhe contar nada antes de falar com o senhor Thomas.

– Está certo então xerife. Deseja beber alguma coisa enquanto esperamos então pela chegada de Thomas?

– Aceitaria sim um bom scoth sem gelo.


Vinda da escuridão – parte 16

XVI

Durante as semanas seguintes tudo ocorre naturalmente na cidade. Com a fixação de Thomas Fisher na antiga mansão dos Lambert, Thomas transfere o escritório de seus negócios para a cidade.

Com crescimento de Nova Orleans os negócios de Thomas prosperavam mais e mais. Rapidamente o jovem ambicioso já possuía sua própria rota de negócios de importação e um armazém para guardar seus produtos. Muitos deles provenientes da Irlanda como bebidas.

Thomas também atuava no mercado de escravos sendo um dos maiores mercadores de Nova Orleans. Seus investimentos na conquista do Oeste, porém não seguiam os mesmos passos dos negócios em Nova Orleans. Obras atrasadas e o problema com os nativos aumentavam o custo de suas caravanas.

Thomas também fazia atuava na política da cidade e era sócio de alguns teatros e museus. Tinha como companhia inseparável Steve que de motorista havia se tornado sócio de Thomas e atuava diretamente com os negócios do Oeste.

A amizade de Thomas com a família Frings ia cada vez mais se solidificando com o passar dos meses, sobretudo quando com a abertura dos negócios de Thomas a Fisher Inc. ele passou a investir na imigração de famílias Alemãs, que trabalhariam para Fisher no porto ou nas lojas e armazém. Dentre essas famílias dois irmãos de Philip foram trazidos para a América e já trabalhavam no porto descarregando as cargas importadas.

Amanda que no primeiro encontro com Thomas ficara encantada com aquele homem com o passar do tempo e com a solidificação da amizade entre seu pai e Thomas, fora se encantando mais por ele. Mas ela era contra a comercialização de escravos que era uma das principais fontes de renda do rapaz.

Essa postura de Amanda gerava nos encontros de final de semana, eles sempre se reuniam na mansão para passar o dia, boas discussões sobre o tema. Uma vez a jovem até fora chamada de nortista por tomas o que causou um rubor de raiva na jovem que retrucou chamando-o de explorador. O fato, porém gerou muitas risadas por todos que estavam presentes.

Thomas e Amanda se davam muito bem e por algumas os dois haviam já trocado alguns beijos escondidos quando a oportunidade se mostrava, a proximidade dos dois era bem vista pelos pais adotivos da menina que faziam gosto pela união dos dois. Assunto até já conversado entre Thomas e Philip.

Numa destas ocasiões Thomas e Amanda, acompanhados a distância por M’tulhu um haitiano que trabalhava para o doutor Frings, ajudando na preparação de ungüentos e remédios que fora trazido para a América por Thomas, indicado por Steve que numa viagem para o Haiti conhecera o velho místico, após o almoço resolveram caminhar pela propriedade.

– Então Amanda, estive conversando com seu pai sobre nos casarmos. Ele me disse que se você não for contra… – disse Thomas um pouco sem jeito para Amanda enquanto caminhavam.

Amanda sem reação para de caminhar repentinamente o que faz com que Thomas olhe para ela reparando que a jovem vertia algumas lágrimas que contrastavam com um largo sorriso.

– Mas… É claro que eu quero me casar com você Thomas! – disse tomada pela felicidade correndo ao encontro do amado.

Thomas a toma nos braços e roda com ela até se desequilibrar. Causando a queda dos dois ela por sobre o corpo dele. M’tulhu que acompanhava o casal observava sorrindo a união dos jovens, por um momento tem um mau pressentimento que é logo interrompido pelo canto de um pássaro.


Vinda da escuridão – parte 15

XV

– Amanda, acorde Amanda ou então seu pai irá à cidade sozinho, e você irá ficar aqui me ajudando hoje como fizera ontem.

– Ah mãe, me deixe dormir mais um pouquinho.

– Nada disso mocinha. Se quiser ficar em casa pode continuar dormindo, mas se você quer ir para a cidade levante-se logo, pois seu pai já está fazendo a barba para sair.

Amanda se levanta ainda sonolenta, sem perceber a presença que estava com ela.

– Vamos Amanda. Você não quer conhecê-lo?

Ao ouvir a voz de Elisabete, Amanda se põe de pé rapidamente e segue para sua penteadeira onde sua mãe gentilmente escova seus cabelos.

– Então senhores. Estamos prontos? – Perguntava Thomas Fisher aos dois companheiros.

– Me desculpe Thomas, mas será que eu poderia ficar na casa? Não estou me sentindo bem para sair. E você pode dirigir o automóvel também não é mesmo? – Perguntou Steve, que aparentava estar bastante pálido.

– Não vejo porque não ficar então. A não ser que o prezado Sr. Eric não ache de bom tom para os negócios você ficar aqui sozinho. Não é mesmo Sr. Eric?

– O que é isso Sr. Fisher. É claro que o seu motorista pode ficar. Afinal hoje nós temos apenas que acertar alguns detalhes do contrato e providenciar a papelada da venda.

– Então está certo Steve! Você fica na casa enquanto eu vou até a cidade e acerto os detalhes da compra. No final do dia estarei de volta com nossas malas. Pretendo-me estabelecer aqui ainda hoje se for possível.

Amanda e os pais adotivos seguiam pela estrada em direção a cidade quando ouviram o ruído do automóvel do Sr. Fisher se aproximando.

– Olá! Bom dia! Querem uma carona? Temos bastante espaço aqui para todos! – Disse Thomas à família que seguia na mesma direção.

– Sr. Fisher… Deixem-os ir sozinhos eles não gostam de… – sussurrou o vendedor ao seu cliente

– Ora Eric. Eles serão meus vizinhos! É claro que eu gostaria de dar uma carona aos meus futuros vizinhos. Afinal devemos nos conhecer! – intervém Thomas.

– Não se preocupe senhor iremos a pé mesmo. A caminhada faz bem. E servirá para ajudar a despertar. – disse Phillip

– Mas papai… Desse jeito nós chegaremos à cidade muito cansadas. E mamãe ainda irá fazer compras!

– Ora menina! Não conta diga seu pai na frente do moço! Ele irá pensar que além de sermos do interior não te educamos direito! Perdoe nossa filha Senhor, mas essa menina ainda não aprendeu a ter modos.

Thomas acelera um pouco o automóvel e o estaciona alguns metros a frente.

– Me perdoe senhor, mas devo concordar com vossa bela filha. – disse Thomas com um sorriso cortês. – A caminhada até a cidade é longa e se ainda irão fazer compras, uma carona pode ser de bastante auxílio. A propósito deixe-me me apresentar. Chamo-me Thomas Fisher, estou comprando a mansão Lambert. – disse estendendo a mão.

– Prazer em conhecê-lo Sr. Fisher, sou o Doutor Phillip Frings. Esta é minha esposa Marta e minha filha Amanda. E como vai Eric?

– Doutor… – responde com um aceno de cabeça.

Phillip olha para a esposa e filha, reconhece que o jovem está certo em sua observação e aceita enfim a carona até a cidade.

– Então senhor Fisher com o que o senhor ganha à vida? – pergunta Philip.

– Eu herdei de meus pais nosso negócio de importação.

– Bem interessante senhor Fisher. Deve ser um produto bem lucrativo para poder comprar a mansão dos Lambert.

– Realmente doutor, realmente é. Agora estou investindo na conquista do Oeste, financiando algumas expedições para os novos territórios.

Após alguns minutos quando a poeira da estrada não permitia que os homens continuassem a conversa eles chegam até a cidade.

– Pronto chegamos! Senhor Frings, estarei na cidade resolvendo os últimos detalhes da compra da mansão, se o senhor não se importar eu poderei dar uma carona para sua família na volta com as compras no final do dia. – diz Thomas ajudando a filha do médico a descer do automóvel.

– Ora meu jovem. Não irei abusar de sua boa vontade, mesmo assim muito obrigado! – Respondeu o médico ajudando a esposa.

– De qualquer forma estarei no escritório do senhor Eric. Deixarei meu automóvel estacionado na frente do hotel se ainda estiver lá quando terminarem as compras e se  desejarem eu poderei levá-las com as compras.

Ele some novamente no automóvel e com um aceno de cabeça se despede da família Frings.

Amanda ainda sentia o toque de Thomas em sua cintura quando a ajudara a descer do veículo, quando sua mãe a faz retornar a realidade.

– Vamos querida? Temos compras a fazer.

– Sim mamãe.

– Um jovem muito prestativo não é querido? – indaga Marta.

– Prestativo até demais. – responde Philip observando o automóvel dobrando a esquina.

– Estamos indo as compras querido, até a noite. – se despedia Marta.

“Prestativo até demais…” pensava Philip sozinho na calçada a frente de seu consultório.

Vinda da escuridão – parte 14

XIV

Enquanto Thomas subia os degraus de dois em dois tentando alcançar Eric ele sentia que o ar da casa sofrera uma modificação sutil. Ele chega à cozinha ainda a tempo de ver Eric entrando na sala de estar. Então apressando ainda mais o passo ele consegue chegar até o vendedor.

– Eric! Eric! Contenha-se! – diz sacudindo o homem pelos ombros.

Aos poucos o vendedor parece recobrar a razão, na mesma proporção que Eric sente que o ambiente da casa vai ficando cada vez mais normal.

– Está melhor meu amigo? O que aconteceu lá embaixo? – pergunta Thomas com uma foz tranqüila.

– Não me lembro direito. Parecia que uma mulher com o corpo queimado se aproximava de mim dizendo “relaxe, você vai gostar!”. E então quando ela tentou me tocar eu corri, corri como se a minha vida dependesse disso. Senhor Thomas, vamos sair daqui. Não irei ficar nem mais um segundo nessa casa.

– Ora meu amigo, está desistindo da venda? – Thomas tentava com a pergunta fazer com que o homem ficasse. – Vejamos… Eu dobro a sua comissão caso passe a noite aqui comigo.

Eric não desejava ficar naquela casa. Ele sabia que havia algo ruim ali, ele vira. Mas a possibilidade de resolver seus problemas financeiros e dar uma vida melhor para a família falava mais alto. Motivado por essa finalidade Eric tomou uma decisão.

– Está certo. Mas fecharemos agora a venda. Concorda?

– Pode pegar os papeis. – disse sorrindo Thomas.

Após assinarem os papeis de compra do imóvel, os dois homens caminham pelo segundo andar da casa onde ficam os quartos e uma sala de leitura. Após Eric apresentar todos os cômodos do segundo andar eles sentem falta do motorista Steve.

– Seu motorista está demorando não é verdade?

– Sim. Ele deve estar nos aguardando na sala de estar. Ele ainda deve estar lá em baixo. – diz Thomas se caminhando em direção ao andar inferior.

Os dois homens descem a escada e seguem para a sala de estar. Neste momento eles nem mais se lembravam do que acontecera no porão da casa. Chegando lá eles encontram com Steve olhando pela janela na direção do automóvel.

– Ora Steve! Está há muito tempo nos esperando aqui? – perguntou Thomas.

O homem se vira lentamente para os homens. Por um instante seu reflexo pode ser visto no vidro da janela. Seus olhos são completamente negros como se fosse pintado de nanquim. Ele então fecha os olhos terminando face a face com o amigo e ao abri-los estão novamente na sua cor natural.

– Não, não Thomas. Cheguei há pouco tempo. Não havia nada lá no porão apenas ratos e alguns fungos venenosos raros.

– Então está certo. Adquiri a propriedade conforme havia planejado.

– Isso mesmo. Podemos nos recolher? O dia em breve irá nascer. – diz Eric já demonstrando sinais de cansaço.

Então com os três de acordo, os três homens cada um em um quarto se recolhem.

Vinda da escuridão – parte 13

XIII

Durante o jantar Phillip pensava nas palavras de Amanda, tanto que não essa fora uma refeição silenciosa, o que causou estranheza em sua esposa Marta observava sua família durante o jantar, Phillip quieto com o olhar distante enquanto Amanda tinha um olhar sonhador o mesmo que ela tinha quando ouvia as estórias de princesas e príncipes encantados.

Ao terminarem o jantar, mãe e filha começam a limpar as louças e talheres, enquanto Phillip retornava para o escritório onde ele costumava tomar um conhaque e fumar seu cachimbo todas as noites enquanto revia, algumas vezes, algum caso que o intrigasse.

Phillip que antes do almoço refletia sobre o caso do bebê dos Smiths agora no escritório acendia o cachimbo sentado comodamente em sua poltrona olhando o céu, sem nem ao menos lembrar o que ocorrera a algumas horas, seus pensamentos eram fixos nas palavras da filha.

– Mamãe, amanhã eu posso ir ajudá-la nas compras na mercearia? – perguntou Amanda, quebrando o silêncio, enquanto enxugava as louças do jantar.

– Mas é claro Amanda. Eu pensei que você iria com seu pai para o consultório. Afinal hoje você não foi ajudá-lo mocinha. – respondeu a mãe que lavava os últimos pratos.

– A senhora está precisando mais de mim que o papai. – disse Amanda com um sorriso no rosto.

– Claro… Claro… Pronto. Terminamos. Agora termine de arrumar tudo nos seus devidos lugares eu vou arrumar as roupas de seu pai para ele trabalhar amanhã. – disse Marta enxugando as mãos no avental, enquanto se dirigia para a porta da cozinha.

– Tudo bem mamãe. Depois que eu terminar, eu vou para o meu quarto, tenho de arrumar meus vestidos e separar a roupa para ir à cidade logo pela manhã.

Amanda já estava terminando de arrumar seu vestido quando reparou que havia mais alguém com ela. Quando se virou ela abriu um largo sorriso ao ver sua mãe biológica Elisabete Carter.

– Olá minha filha, não falei que viria hoje ainda ver você. – disse sorrindo a mulher sentada na cadeira da penteadeira.

– Mãe! Como estou feliz! Amanhã vou conhecê-lo. Não é verdade! Amanhã eu vou conhecer o homem que o destino me reservou! – disse segurando o vestido junto ao corpo enquanto rodopiava.

A atitude da jovem fez com que Elisabete sorrisse, e seu sorriso trazia a lembrança saudosista da sua meninice. Essa lembrança também trazia a dor, a dor da juventude roubada. Que fez com que o olhar de Elisabete para a filha ganhasse o aspecto de um predador ao ver a presa.

– Amanda, você estará linda amanhã. E sim, vou fazer de tudo para que você o conheça. Irei protegê-lo como eu protegeria a um filho. Agora devo ir. Deite-se e durma amanhã será um dia muito importante.

Amanda coloca o vestido num cabide e o pendura na porta do armário. E se despe para vestir a camisola enquanto diz:

– Obrigada mãe.

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