Vinda da escuridão – parte 12

XII

                – Então Sr. Fisher está pronto? – perguntava o vendedor.

– Vamos. – respondeu Thomas Fisher se levantando.

Fisher fingindo um mal estar súbito se apóia em Eric e aproveitando-se da desatenção põe as chaves no bolso do paletó de Eric.

– Está melhor chefe? – perguntou o motorista para Thomas.

– Bem melhor… – responde, e continua – Muito obrigado Eric por me sustentar enquanto me senti mal. Por um momento parece que tudo estava rodando.

– Não precisava agradecer Sr. Fisher. Vamos entrar, na sala de estar existem poltronas confortáveis para o senhor se sentar para se recuperar. – Diz colocando a mão no outro bolso do paletó e tirando um molho e escolhendo a chave correta para abrir a porta da frente.

– Thomas, pode me chamar pelo meu nome. – respondeu Thomas Fisher.

Os três entram na casa. Enquanto Steve levava Thomas até uma cadeira, Eric ia acendendo algumas lamparinas e pouco a pouco o ambiente ia se iluminando. Steve observava nos olhos de seu patrão que seu estado de espírito ia sutilmente sofrendo alterações. Ele aparentava surpresa e espanto enquanto observava a sala que ia ficando iluminada. Steve estranhava, pois de acordo com os planos Thomas já deveria conhecer esse lugar.

– Algum problema chefe? – perguntou Steve.

– Não… Só que… Essa sala está diferente.

Eric voltava até os dois com o ar amistoso de sempre.

– Thomas, está se sentido melhor?

Com um aceno afirmativo feito com a cabeça, Thomas responde a pergunta do vendedor.

– Esta casa sofreu um incêndio há alguns anos e então o antigo proprietário que é seu atual dono. Reconstruiu a propriedade, porém ao contrário do que todos pensam esta casa segue a mesma estrutura da casa original. Nenhuma porta fora colocada num local diferente do que era na casa original. Todas as passagens originais foram mantidas até mesmo as passagens escondidas. Tudo isso foi possível porque o mesmo homem que fez o desenho da casa original fora contratado pelos novos proprietários para chefiar a obra.

Os olhos de Fisher demonstravam sua perplexidade ante a nova explicação. “Então tem alguém realmente aqui.” Esse pensamento esfriava o interesse de Thomas pela casa, quando o discurso de Eric e seus pensamentos são interrompidos por um barulho vindo da cozinha como se um vidro fosse quebrado os chamou a atenção.

– Vocês ouviram isso? – perguntou Steve.

– Parecia um vidro estourando. – respondeu Eric.

– Foi exatamente isso que eu ouvi. Vou até a cozinha, parece que o barulho veio de lá. – falou Thomas.

Thomas segue na frente com passos decididos, enquanto os outros dois o seguem cautelosamente. Ao se aproximar da cozinha Thomas tem a impressão de ver uma massa mais densa na escuridão que ao tentar focar desaparece.

Os três homens chegam à cozinha e Eric que vinha trazendo consigo uma lamparina acesa que põe sobre uma bancada onde possa iluminar boa parte do cômodo. Steve passa a procurar por vestígios de vidro quebrado no chão próximo a pia, enquanto Thomas fazia o mesmo próximo a porta da dispensa.

Eric que estava mais afastado um pouco dos dois homens em sua busca, analisava a cozinha. Havia algo de estranho naquele lugar, então movido mais pelo instinto que pela razão ele diz:

– Thomas, dentro da dispensa.

Thomas de pronto se aproxima da porta e com cuidado, gira a maçaneta até ouvir o ruído que o informaria que ela estava aberta. Ele puxa lentamente a porta abrindo-a esperando ver um armário com prateleiras em seu interior. Porém o que ele encontra é outra porta aberta com uma escada de acesso possivelmente ao porão da casa.

Os três então seguem pela escada chegando até o porão. Thomas pensava que iria sair na sala onde estivera mais cedo, porém a sala era totalmente diferente. No lugar de uma adega eles estavam num local que mais lembrava um consultório médico. Estantes com várias compotas, livros e instrumentos cirúrgicos decoravam o local que em um dos seus cantos possuía uma mesa similar a mesa onde eram feitas operações.

Neste momento os homens se assustam, a porta do armário fechava com um barulho como se alguém a houvesse batido com força, em seguida sons de uma alavanca sendo manipulada e algum móvel pesado sendo arrastado. Por fim passos de alguém descendo a escada, vindo em sua direção.

Os três homens buscam por algum lugar para se esconder enquanto os pesados passos na escada se aproximavam. Quando parecia que iria cruzar o portal de acesso os passos cessam apenas uma brisa é sentida pelos homens. Uma brisa que lhes gela a alma.

– NÃO!!! – gritava Eric, subitamente caindo de joelhos no chão cobrindo os olhos com as mãos. – PARE, PARE, DEIXE-ME SAIR!

Steve e Thomas tentam acalmar o homem sacudindo-o. Mas quando Eric olha para os dois ele com uma força desproporcional à sua constituição física empurra os dois que acabam caindo e parte correndo para a saída da sala.

Enquanto Steve e Thomas se levantavam eles ouviam os passos de Eric subindo a escada.

– Eric! Eric! Se acalme não há nada aqui! – gritava Thomas. – Steve, verifique essa sala. Vou tentar acalmar o vendedor. Quando terminar, nos encontre na sala de estar. – disse enquanto seguia o vendedor.

– Tudo bem Thomas, mas não estou gostando deste lugar. Ele não parece com nada que tenhamos nos encontrado antes. Desta vez parece real.

As palavras finais proferidas pelo motorista não foram ouvidas pelo amigo que já seguia pela escada. Agora Steve estava sozinho naquele escuro cômodo.

Ele ouve um ruído próximo a mesa, mas seja lá o que foi que o atingiu foi tão rápido que Steve ainda teve a impressão de ver seu corpo de pé enquanto sua cabeça caía no chão.

 

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Vinda da escuridão – parte 11.

XI

                Phillip Frings voltava para casa caminhando tranquilamente pela estreita estrada de terra batida quando aquele automóvel passou ao seu lado jogando terra para todo lado deixando como rastro uma nuvem de poeira. Mais um pouco ele teria sido atropelado.

Após remover um pouco da poeira do corpo, Phillip entrou em casa.

– Queridas! Estou em casa! – falou da porta. Como nenhuma das duas mulheres da casa, sua esposa e filha, responderam. Phillip seguiu para a cozinha com o intuito de ver o que estava acontecendo.

– Ora o que está acontecendo. Onde as duas se meteram? – disse para si mesmo, observando que as panelas estavam sobre o fogão que ainda emitia algum calor.

Amanda e a mãe voltavam para casa conversando e sorrindo quando ouviram os sons do automóvel que passava retornando da cidade na direção da fazenda dos Lambert.

– Mamãe, será que poderemos comprar um automóvel algum dia? – perguntou a jovem.

– Não sei minha filha eles são muito caros. Por quê?

– Eu gostaria de ter um e para dirigir por essas estradas. – disse Amanda fazendo os gestos como se segurasse um volante.

– Menina, ora veja se isso é coisa de uma dona de casa! Isso é coisa para os homens! Devemos estar prontas para servi-los. E vamos logo, pois seu pai já deve ter chegado a casa e vai ser uma reclamação só!

As duas mulheres seguiam rápido para casa, enquanto as primeiras estrelas começavam a apontar no céu. Quando a casa já era avistada elas viram que algumas das lamparinas já estavam acesas sinal que Phillip já se encontrava em casa para desespero de Marta.

– Olhe só! Seu pai já chegou! Hoje vai ser uma noite daquelas.

Quanto mais o tempo passava mais preocupado ficava Phillip, “Onde teriam ido aquelas duas?”, pensava. O dia não fora muito pesado, mas agora se lembrava de um paciente emergencial no final do dia que a priori não chamara muita atenção. Mas com esse tempo que ficou sozinho o caso retornava os seus pensamentos.

Já estava preparando a maleta para voltar para casa quando a Senhora Smith entrou no consultório trazendo seu filho, uma criança com seus sete ou oito meses, em prantos. O bebê estava muito escuro e não respirava. Ela contou que o menino brincava com os irmãos na cama quando tentando se levantar escorregou e bateu com o pescoço na cabeceira da cama. Como ele não chorou os irmãos não se importaram, mas o fato do bebê ficar parado chamou a atenção da mãe que o pegou e correu para o consultório do médico.

Após alguns procedimentos para estimular a respiração o doutor Frings conseguira trazer de volta a vida o bebê. Porém naquele momento um detalhe passara despercebido por Phillip Frings. O bebê não tinha nenhuma marca que demonstrasse que havia sofrido um acidente como a mãe comentara.

No seu devaneio o doutor Frings nem reparou quando a esposa e a filha entraram na casa. Ele estava sentado em seu escritório fazendo algumas anotações sobre o caso do bebê dos Smiths quando a porta do escritório repentinamente se abriu e por ela Amanda passara como um furacão, assutando-o.

– PAI! – grita Amanda entrando correndo pela porta indo na direção de Phillip.

– MEU DEUS! – responde gritando com o susto que sofrera pela entrada tão abrupta da filha. – Amanda onde é que vocês se meteram? Cadê sua mãe? – completou já se recuperando do susto.

– Ela foi direto para a cozinha e me pediu para vir até aqui chamá-lo para jantarmos.

– Bem… Vamos.

– Papai. Hoje essa noite vai ser ruim. – o tom da voz da menina passara do descontraído para um tom sombrio como uma chuva de verão – Será a noite da lua de sangue.

– Por que você diz isso filha?

– Minha mãe de verdade me falou. Ela também me disse para eu encontrar o forasteiro e que eu ir com ele.

Phillip Frings já havia presenciado uma destas conversas de sua filha com o que ela dizia ser sua mãe de verdade. Todas as vezes que ela lhe contara que a mãe de verdade lhe disse algo realmente acontecia. Como em dois acidentes que ele sofrera que foram previstos pela menina com a mesma riqueza de detalhes que ela contara. Por conta disso ele passara a acreditar no que ela falava e não deixar por conta do acaso.

– Bem minha filha. Talvez sua mãe de verdade esteja errada desta vez. – diz Phillip desviando o olhar para a filha.

Quando os olhares se cruzaram Phillip teve a impressão por um momento de quem estava a sua frente não era mais Amanda, mas sim Elisabete Carter sua progenitora. Ela o transmitia um olhar severo que o forçou a desviar o olhar por um só instante.

– Vá Amanda, vá ajudar sua mãe a por a mesa. Irei terminar essas anotações e vou logo em seguida.

Phillip observou a filha saindo enquanto pensava em como ela se parecia com Elisabete. Ele desviou a atenção para a janela, por onde procurou a lua enquanto balbuciou:

– Será verdade?

Vinda da escuridão – parte 10

X

Thomas caminhava cautelosamente pelo porão procurando por algum objeto que pudesse ser da construção original que ele pudesse levar consigo. Agora o odor não era tão cáustico quanto no momento que entrara.

Agora após caminhar até o parecia ser o centro do porão ele pode calcular sua exata dimensão. O porão não era muito grande, ele não ocupava toda a extensão da mansão apenas a cozinha e a sala de jantar eram o tamanho.

Suas paredes eram preenchidas por estantes. Numa observação mais superficial parecia que mantimentos pudessem ser estocados naquele local. Possivelmente conclui Thomas deveria existir outra entrada para o porão, possivelmente em acesso pela cozinha. Mas com a reconstrução da mansão talvez essa passagem possa ter sido lacrada. Havia ainda outras cinco estantes no colocadas em fila no centro do porão estas aparentavam ser uma espécie de adega, devido aos encaixes para garrafas.

Procurando pela possível passagem de acesso à parte interna da casa, Thomas encontra um estranho objeto empoeirado numa prateleira, com o lenço com o qual cobrira o rosto ele toma para si o objeto, que parecia uma medalha ou pingente de cordão. Pelo tato ele reparou que esse objeto de forma retangular possuía alguma coisa gravada em alto relevo, mas que por ora não poderia analisar com calma.

Enquanto tateava o objeto Thomas ouve um ruído às suas costas. Ele se vira para ver o que poderia ser, mas não vê nada.

“Estou começando a ouvir coisas. Bem acho que isso que encontrei já vai servir. Agora devo colocar tudo de volta no seu devido lugar” – pensava, enquanto colocava o lenço com a medalha no bolso.

Quando começava a subir, Thomas sente uma forte pancada na nuca que o faz perder os sentidos.

O ruído do automóvel se aproximando faz Thomas acordar. E ele se vê sentado num dos bancos da varanda na entrada da casa. Assustado ele põe a mão no bolso em busca da medalha que é tocada com os seus dedos.

“Mas o que será que a…” – seu pensamento é cortado e a mente de Thomas é invadida pela visão de uma jovem loira de cabelos longos e lisos, no alto de sua juventude trajando um vestido branco correndo feliz pela floresta. Então a jovem olha para ele.

O susto pelo olhar da jovem desperta Thomas. Que não consegue por mais que tente lembrar-se do rosto da jovem, mas um nome vem a sua mente.

“Carter.”

– Carter… – ele repete para si mesmo sem reparar que os outros dois homens já estavam ao seu lado.

– Do que me chamou Sr. Fisher? – perguntava Eric ao se aproximar.

– Er… Não nada, apenas… Então Eric está pronto para nossa noite? – tentava desconversar.

– Sr. Fisher, aqui está sua mala. – Interrompe providencialmente Steve quando reparou que o vendedor iria insistir no assunto.

Vinda da escuridão – parte 9.

IX

Thomas caminhava pela parte externa da casa procurando por algum vestígio da casa original. Thomas fizera há alguns anos um estudo sobre casas com histórias de tragédias inexplicáveis, a Mansão da Fazenda Lambert foi uma das que ele encontrou no seu estudo. Ele já havia tentado em outras quatro propriedades encontrar algum vestígio de ação sobrenatural. Mas apesar da história as tentativas anteriores foram todas fracassadas. Algo dizia para Thomas que dessa vez seria diferente.

Enquanto viajava de Quebec para Nova Orleans Thomas estudou muito sobre a mansão dos Lambert e descobriu que após o incêndio muitas catástrofes e eventos inexplicáveis começaram a ocorrer na cidade Des Allemands. Outra coisa que descobriu foi que após o incêndio a casa original fora demolida e construída a atual pelos antigos proprietários. Estes mesmos após a construção que demorou oito meses só residiram ali por duas semanas, quando puseram a propriedade a venda e se mudaram. Quando chegou a Des Allemands procurou mais informações sobre a propriedade e ficou sabendo que o porão da mansão ainda é o da construção original. E era essa entrada que Thomas procurava.

“Duas horas, é todo o tempo que vou precisar.” – pensava Thomas.

Depois de circundar a casa ele encontrou a entrada para o porão, ela estava como pensara trancada com um cadeado.

“É isso.”

De posse da chave ele tenta destrancar o cadeado em vão. Então ele parte para a entrada e abre a porta principal com a chave.

“Porque eu não fiz isso antes. Perdi um tempo precioso.” – se recriminava.

Buscou pelos móveis da sala de estar e nada, nos da sala de jantar e não encontrou nada também. Já estava a ponto de desistir, quando vasculhando a cozinha tentou no armário da dispensa e encontrou um molho com chaves etiquetadas.

Retirou a chave com a etiqueta do porão e seguir rapidamente de volta para abrir o cadeado.

Assim que Thomas abre a porta um vento com odor nauseante é expelido do porão. Então de posse de um lenço que põe no rosto para protegê-lo do cheiro forte ele entra no porão.


Vinda da escuridão – parte 8.

VIII

– Chegamos senhor Eric. – fala o motorista parando o automóvel.

Steve desce antes num só pulo e rapidamente já está ao lado de Eric ajudando-o a descer do veículo.

– Steve, em quanto tempo estará de volta? – pergunta o vendedor arrumando o terno.

– Estarei aqui aguardando pelo senhor dentro de uma hora. Mas não precisa correr com seus afazeres. Eu vou comprar alguma comida para ele e buscar a mala do Sr. Fisher, depois eu irei jantar no hotel. Portanto pode fazer tudo com tranqüilidade.

Na mente de Steve ele seguia o plano de seu patrão, ganhar tempo. Era tudo o que ele precisava, se o vendedor estivesse com muita pressa ele poderia forjar uma quebra no veículo. Um homem do interior não deveria conhecer muito destas máquinas e esse seria o plano caso tivesse problemas.

– Então está certo irei fazer minhas coisas, e caso não esteja tudo pronto quando chegar buzine que irei me apressar para terminar o que estiver fazendo.

– Está certo assim senhor Eric.

Com isso os dois homens se despedem com um aperto de mãos.

Enquanto Eric seguia para sua casa, Steve deixava escapar um sorriso no canto da boca.

– Brenda! Brenda! – entrava gritando Eric em casa chamando pela esposa.

– O que foi Eric, por que essa gritaria toda?

– Prepare alguma coisa para eu comer enquanto vou me trocar, acho que vou conseguir vender a fazenda dos Lambert. Mas devo passar a noite lá com o comprador.

– Querido você tem razão que quer fazer isso? Passar a noite naquele lugar? – disse Brenda com a voz preocupada.

– Vamos logo mulher! Se eu vender aquela propriedade estaremos livres de todas as nossas dívidas. Não será uma lenda que os mais velhos contam que vai nos impedir! – respondeu Eric subindo as escadas e tirando a roupa.

Brenda Keneth era um bebê quando o incêndio ocorreu, mas as marcas deixadas em toda a cidade ainda eram sentidas, e como o marido iria passar a noite na fazenda amaldiçoada dos Lambert ela se lembrava das estórias contadas por seu avô sobre o incêndio.

No dia anterior ao incêndio, o noivo se sua tia; Joseph Winchester, o então xerife da cidade, havia marcado a data para o casamento. Porém a última vez que ele foi visto foi pela manhã nos restos do incêndio e depois partiu a cavalo em direção a cidade e nunca mais foi visto por ninguém.

Devido ao desaparecimento do noivo, a tia de Brenda tentou diversas vezes o suicídio, quando por fim conseguiu um mês depois do desaparecimento ela foi encontrada morta enforcada pendurada no quarto.

Nessa época um novo médico chegava à cidade era um alemão chamado Dr. Frings, ele veio para a cidade com a esposa uma descendente de nativos americanos, criada no Oeste chamada Marta. Como único médico da cidade ele foi o responsável pela verificação do corpo antes do enterro.

Durante o exame do corpo o médico reparou e contou para os pais da moça que ela já não era mais pura, e, portanto esse talvez fosse o motivo da tragédia.

Por um ano o avô de Brenda procurou por indícios do paradeiro de Joseph Winchester, mas em vão. Os outros membros da família do antigo xerife um a um foram acometidos de males mentais, fazendo com que alguns se matassem outros ficassem loucos e largassem tudo e partissem da cidade no meio da noite. Todos na cidade condenavam aquele lugar, após o incêndio todas as famílias da cidade passaram a ter uma história ruim para contar.

Eric retornava do quarto já com a maleta com alguns itens de higiene e roupas extras, bem como um revólver, nunca se sabe o que será preciso. Enquanto a mulher preparava algo de comer para levar ele comia o jantar que estava servido e escrevia um bilhete.

– Pronto Eric aqui está. – disse Brenda deixando um embrulho de papel sobre a mesa. – Não vai adiantar eu pedir para que não vá. Então lhe peço, tenha muito cuidado e volte vivo para casa.

– Pode deixar querida, não vai acontecer nada. – Eric respondia escondendo o bilhete com o lenço que usara enquanto comia.

Ele então se levanta, dá um beijo apaixonado na esposa.

No momento marcado o motorista do estranho homem buzinava conforme o combinado e o aguardava por Eric.                 Brenda leva o marido até a porta com a sensação de que talvez essa fosse à última vez que estava vendo o marido.

– Fique tranqüila, eu vou ficar bem. – disse Eric dando um beijo na testa da esposa – – Fique com Deus meu amor.

Ao ouvir essas palavras Brenda fica mais calma esboça um sorriso, e quando o marido parte com o outro homem no automóvel ela balbucia passando a mão na barriga ainda pequena, mas que guardava o primeiro filho do casal.

– Você também Eric. Volte para nós. Nós te amamos.

Vinda da escuridão – parte 7.

VII

 

– Amanda! Amanda! Onde você está! – grita uma senhora correndo pelo bosque, vestida em trajes simples.

Perto dela uma jovem com seus quinze anos escondida ri observando a mãe correndo a sua procura.

– Ah! Achei você! Amanda Carter, saia já daí mocinha! Eu sei que está atrás deste pinheiro!

– Hihihihihihi – ria a jovem saindo de trás da árvore.

– Já não disse que não deve se afastar de nossa casa! As pessoas da vila não nos querem por lá, por isso não vamos dar a chance deles virem até aqui nos procurar e perturbar.

– Desculpe mãe, mas eu ouvi o barulho de um automóvel e fui até lá ver. Não é sempre que podemos ver uma coisa dessas por aqui.

Amanda fora encontrada na floresta pelo senhor Frings quando ela ainda era um bebê. Phillip Frings era um médico na vila, mas preferia viver numa casa afastada próxima ao bosque onde as irmãs Carter viviam. Já fazia uma década que ele não as via, e então a jovem Elisabete apareceu com a filha no colo. Elisabete estava muito fraca, muito adoentada, convalescia de tuberculose.

Phillip que sempre ajudara as irmãs Carter, a levou para sua casa e com a ajuda de sua esposa Marta passaram a cuidar de ambas a mãe e filha. Até que um dia a noite a jovem Elisabete desapareceu deixando a filha e um bilhete, onde pedia para que os Frings cuidassem de sua filha.

Phillip e Marta que não podiam ter filhos passaram então a cuidar da jovem Amanda como se fosse sua filha, sem esconder nenhuma informação da sua origem, de sua herança. Amanda sempre fora uma menina muito inteligente e aprendia com muita facilidade tudo o que era ensinado para ela.

Rapidamente Amanda aprendeu as tarefas de casa com Marta e demonstrava uma grande curiosidade sobre os procedimentos do trabalho de Phillip. Assim ela já aos doze anos ajudava o pai adotivo nas tarefas mais simples, como limpar ferimentos fazer costuras, no consultório. Amanda também possuía um dom natural de reconhecer plantas medicinais e uma grande afinidade com animais.

– Tudo bem menina vamos para casa. – disse Sra. Frings abraçada a jovem. – Seu pai quando chegar vai estar morto de fome.

As duas seguem para casa sorrindo.

Vinda da escuridão – parte 6.

VI

Nova Orleans, 1820.

 

                 – Ora, ora Sr. Fisher! É claro que essas terras são produtivas. – disse Eric Keneth tentado fechar a venda da antiga fazenda Lambert ao forasteiro.

– Mas Eric, eu posso chamá-lo de Eric não é? Dizem que estas terras são amaldiçoadas. E quando se trata de maldições em Nova Orleans devem ser considerados os presságios. – disse Sr. Fisher.

Eric começava a achar que iria perder a venda do ano. Se conseguisse aquela venda ele iria resolver seus problemas com o banco, que estava prestes a contestar a hipoteca o que iria despejar sua esposa e três filhos.

– Claro que pode me chamar de Eric, Sr. Fisher. Bem, realmente há lendas sobre este lugar, mas há muitos anos eu venho até aqui com alguns possíveis compradores e eu nunca vi nem senti nada. Mas se desejar nós poderemos passar essa noite aqui para verificar se as lendas são verdadeiras. O que o senhor acha?

Numa atitude desesperada Eric fizera aquela proposta, até achando que se o homem não quisesse realmente fecha o negócio ele não iria aceitar de uma vez.

– Pensei que nunca fosse me fazer tal proposta Eric. Então ficaremos hoje aqui. Irei mandar meu motorista para a cidade para que ele busque algumas coisas no hotel. Se desejar acompanhá-lo para pegar alguma coisa em sua casa ele poderá levá-lo e trazê-lo. Ou então ele pode levar algum recado para a sua família. Não é mesmo Steve? – disse prestativo

– Claro senhor.

– Eu não sei…

– Ora meu bom Eric. – disse Fisher abraçando-o pelos ombros e puxando-o para caminhar pela propriedade. – Você sabe tudo o que tem aqui, estará com meu motorista. Eu posso ficar aqui sozinho, ou se preferir fique comigo. Mas nada pode acontecer, e o meu desejo realmente é comprar a fazenda com tudo o que estiver da porteira para dentro. Fique tranqüilo as outras fazendas não me são tão interessantes quanto essa.

– Senhor? Estou pronto para partir.

Antes mesmo que Eric o respondesse já se via no banco ao lado do motorista no automóvel do Sr. Fisher.

Thomas Fisher acompanhava o veículo sumir na estrada, então ele pega no bolso de seu paletó preto seus óculos e os põe.

– Vejamos, tenho umas duas horas até eles retornarem, acho que será o suficiente. – diz com um leve sorriso no rosto seguindo em direção da porta da frente da casa, enquanto brinca com a chave que havia retirado do bolso de Eric quando o abraçara.

Vinda da escuridão – parte 4 e 5

IV

Joseph cavalgava rápido certo de que encontraria o culpado pelo incêndio no chalé das irmãs Carter, naquela hora do dia elas não estariam “trabalhando”, deveriam estar se preparando para o trabalho. Então ele poderia encontrá-las com facilidade.

Ao avistar o chalé Joseph, reduz a velocidade na qual cavalgava para apenas um trote suave, não queria assustá-las com uma aproximação abrupta. A cem metros do chalé ele desmonta, prende o cavalo numa árvore próxima e avança a pé até a soleira do chalé.

– Alguém aí? Lis, Hanna e Kimberly onde vocês estão! – grita Joseph.

O ruído característico de uma pistola quando é preparada para o disparo às suas costas, fazem correr o frio na espinha.

– Levante as mãos e fique de joelhos. Não hesitarei em apertar o gatilho.

A voz feminina deixou Joseph mais tenso, se realmente foi uma das irmãs Carter a responsável pelo incêndio ele não sairia vivo deste lugar. “Mas em que eu estava pensando?”, pensava.

– Calma… – disse Joseph começando a se virar.

Junto ao movimento, o ruído seco do disparo, que antecipara a sensação de calor e dor no joelho esquerdo, devido à dor Joseph sente a perna dobrar levando-o ao chão.

– Meu joelho! Sua vaca! Você acertou meu joelho! – gritava de dor o xerife.

– Eu avisei xerife. Faça o que estou mandando. O próximo será o final de sua patética e infeliz vida. – disse a mulher com uma voz calma.

Sem alternativas o xerife passou a fazer o que a mulher dizia. Nesse momento ele sente uma pancada forte na nuca e tudo apaga.

V

Joseph aos poucos vai recobrando os sentidos, o joelho alvejado dói muito mas ele sente que está enfaixado. Com a visão ainda borrada, ele percebe que está num quarto pequeno e existe outra pessoa ali também.

Ao tentar mexer o corpo ele sente a dor do joelho, mas não estava preso. Então com muita dificuldade ele consegue se levantar. Passa a mão no rosto, a dor do contado da mão no rosto é dilacerante, parecia que tocava direto na carne. Ele com dificuldades vê um espelho rachado pendurado na parede, o ângulo não o permite ver seu reflexo.

Joseph fica de pé e com muito custo se aproxima do espelho. Ao ver seu reflexo Joseph tenta gritar, mas seu grito sai abafado. A pele de seu rosto fora arrancada e sua boca costurada. As lágrimas que vertem de seu rosto queimam como ácido correndo na pele ao escorrerem pela carne.

Ele se aproxima do outro corpo, depois de um tempo ele reconhece é Joshua Bartey o outro homem que estava com ele no dia em que estupraram a jovem Elisabete, Joshua estava com a barriga aberta, com vários insetos e vermes devorando-o. Não tinha ainda o odor de corpo em putrefação, o que demonstrava que ele havia morrido há pouco tempo.

Joseph incentivado pelo medo da morte certa procura forças para suportar as dores e inicia sua fuga, ele encontra sob um armário pano limpo e uma bacia com água que ele usa umedecer o pano e enfaixar sua cabeça.

Após enrolar o pano úmido na cabeça ele busca uma saída para aquele lugar, “Onde será que eu estou” se perguntava o xerife. Sem muita dificuldade o que ele acabara estranhando ele consegue encontrar a saída daquela casa.

Do lado de fora da casa ele encontra uma cesta de onde podia ouvir um choro de criança. Junto a ela um bilhete:

“Joseph Klark, já fora punido pelos seus pecados, agora deverá cuidar desta criança como se fosse sua. Nós sempre estaremos lhe observando. Siga para o norte. Não volte para a sua casa. Tudo o que precisa está amarrado no seu cavalo. Leve a criança consigo e a crie que não voltaremos.”

Joseph começa a chorar copiosamente como uma criança ao terminar de ler o bilhete, ele toma a cesta e segue na direção do cavalo. Ao contornar a casa ele vê uma cena que jamais sairia de sua lembrança. As irmãs Carter mortas nuas pregadas ao solo com seus ventres abertos. No chão um pentagrama era desenhado com o sangue das mulheres.

Então ainda com o pavor pela sua vida ele foge na direção do norte.

Vinda da escuridão – parte 3.

III

Joseph acordara suado, leva a mão ao abdômen ainda com uma forte impressão do pesadelo. O chamado do Sr. Welson, avisando que a casa dos Lambert estava em chamas foi idêntico ao que ocorreu no sonho. Aquela sensação de “déjá vu” era incomoda, até porque se o sonho se tornasse real esse seria o seu último dia de vida.

Chegando até a mansão dos Lambert, os vestígios do incêndio eram ainda piores do que o sonho, o cheiro da carne queimada podia ser sentido mesmo no distante portão de acesso à propriedade. O xerife desmonta de seu cavalo e se encaminha até uma pequena aglomeração de pessoas que aparentemente lutaram contra o fogo.

“Mas como? É idêntico ao meu sonho desta noite.” – ele pensa enquanto caminha pelo o que foi um dia um belo jardim, se recordando do sonho.

– Xerife. – chama-o um de seus auxiliares quebrando o transe no qual se encontrava. – O Sr. Welson já nos informou que o quando chegou o fogo já era forte ele e os outros vizinhos ainda tentaram conter as chamas, mas ventava a noite e não conseguiram. As chamas acabaram por queimar a casa e a sela dos escravos.

O homem faz uma pausa, engole em seco, e continua:

– Senhor, eu gostaria que visse uma coisa. Dentro da casa. Assim que cheguei entrei para procurar alguma pessoa viva… Bem, vou mostrar ao senhor.

Os dois homens então entraram pela porta da frente da casa acessando o que foi um dia a grande sala de estar onde os visitantes eram amistosamente recebidos. Dentro vários corpos queimados formavam uma pilha disforme, sendo impossível distinguir quem eram realmente. O odor era insuportável. Eles seguem em direção a sala de jantar, Joseph temia por essa hora tanto que suas mãos começavam a suar.

Quando eles passam pela cozinha uma surpresa nenhuma parte dela fora atingida pelo incêndio, mas a família Lambert jazia ao chão todos degolados.

Após se recuperar do choque de ver tamanha brutalidade, Joseph atentamente analisa a posição dos corpos. O corpo de Michael parecia apontar numa direção.

– Então xerife, eu não falei que era estranho?

– Realmente Willian, realmente. Agora vá lá fora e pegue mais informações com os vizinhos tente descobrir se eles viram alguma briga algum forasteiro ou algo de estranho acontecendo.

– Sim senhor. – responde já se virando para sair.

– Ah Wil! – o homem olha para trás. – Não se afaste muito.

Quando reparou que estava sozinho na sala de jantar, Joseph verifica a parte de baixo da mesa procurando alguma coisa, mas não encontra nada. Ele então se vira para a direção que era indicada pelo corpo de Michael, ele apontava para uma janela que dava vista para a floresta das irmãs Carter.

– Eu acho que entendi velho amigo, o que tentou me dizer. – diz Joseph olhando para o corpo de Michael Lambert.

Dali então Joseph segue sozinho, a cavalo, para o chalé das irmãs Carter.

Vinda da escuridão – parte 2.

II

                Os acontecimentos daquela noite voltam à mente do xerife, então uma sensação ruim percorre todo o seu corpo. Joseph olha ao redor sem nada ver, dá um suspiro de alívio e entra de uma vez nos escombros da casa.

O cheiro de carne queimada ainda é forte, alguns corpos retorcidos pela estão pelo chão da cozinha. “Por que não saíram da casa? As portas não estavam trancadas” pensava Joseph.

O piso de madeira rangia a cada passo dado, cada vez mais corpos eram encontrados pela casa. Ele atravessou a antiga cozinha e o corredor de acesso à sala de jantar, o odor ia ficando cada vez mais insuportável. Quando ele olhou ainda pelo arco da passagem para o interior da sala de jantar, Joseph sentiu seu sangue gelar, era abominável a cena.

Corpos carbonizados sentados à mesa e posta uma massa que a primeira vista não era possível distinguir as formas. Os corpos sentados pareciam com os integrantes da família a exceção de Michael, sob a mesa a massa carbonizada era na verdade dois corpos nus em posição de coito.

Joseph tentou gritar ao identificar a cena. Ele se aproximou da mesa, estranhamente o chão não estava queimado. Ele analisou o piso e reparou que havia algo na parte de baixo da mesa. Com algum esforço para evitar o vomito ele consegui se colocar abaixo da mesa, na parte posterior da mesa havia o cabo de uma faca que fora fincada na mesa. Pela posição acertou o corpo da mulher que estava sobre a mesa. Havia também uma crosta de sangue corria pelo cabo da faca se projetando numa poça no chão.

Com um pano enrolando sua mão o xerife remove a faca e repara que ela possuía uma jóia ou um símbolo que fora arrancado de sua empunhadura. E a lâmina era trabalhada com alguns símbolos que ele nunca antes havia visto. Quando enfim ele saiu de baixo da mesa. Continuou a caminhar pela casa em busca de mais vestígios sobre o motivo do incêndio. Ao retornar para a cozinha com passos apressados o xerife ouve um ruído vindo da sala de jantar.

“Mas que diabos, está acontecendo!” – pensa

Um cheiro ocre nauseante toma o ambiente. Joseph consegue ouvir algumas vozes ao fundo se distanciando eram os homens que trabalhavam para ele. Parecia que eles iam embora. O ruído agora aumentara pareciam passos, “mas quem seria?” pensava.

Ao se voltar para a direção dos passos, Joseph sente uma lâmina fria perfurar-lhe a barriga rasgando seu estômago. Sem compreender o que acontecia ele olha para frente e vê o que lhe parecia uma mulher.

A carne de seu corpo estava retorcida e enegrecida, um dos seios havia sido arrancado e ferimentos de diversas facadas abertos por todo o corpo nu, ainda secretavam pus. Ela sorri para o homem enquanto sussurra, sua voz parece vinda das profundezas…

– “Não se preocupe, você vai gostar…”

Joseph tenta gritar, mas o sangue o sufoca impedindo proferir qualquer som.

Do lado de fora junto aos assistentes do xerife, as três irmãs Carter, sorriem enquanto partem com os dois assistentes em direção à floresta.

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